Início > Entretenimento > Artigo

De “Vamos em Frente” à alma cinematográfica de Hou Hsiao-hsien: Lim Giong, a doçura mais rebelde da nossa geração

Entretenimento ✍️ 張哲鳴 🕒 2026-03-24 14:05 🔥 Visualizações: 2

Imagem de capa

Se a cena pop taiwanesa dos anos 90 era uma algazarra envolta em luzes de néon e dança, Lim Giong foi o único que teve coragem de desligar o volume e se embrenhar na penumbra do cinema. Quem é da minha geração guarda na memória aquele jovem de camisa branca cantando “Vamos em Frente” na Estação de Trem de Taipei. Mas se você perguntar sobre ele agora, os cinéfilos mais velhos vão te contar que, mais tarde, aquele rapaz vendeu sua alma para Hou Hsiao-hsien, para as paisagens taiwanesas silenciosas, mas ensurdecedoras, que habitam os filmes.

Mais que um cantor, a “virada” de uma era

Muita gente lembra de Lim Giong pelo álbum “Vamos em Frente”, que mudou a história da música pop em Taiwan. Na época, ele parecia ter uma força bruta, transformando as canções em dialeto minnan – que antes eram lamúrias trágicas – em algo descolado, cheio da confiança da juventude urbana. Mas, pra ser sincero, naquela fase, ele mesmo não estava satisfeito. Aquela “pira” de estar sob os holofotes se tornou, para ele, uma pressão gigantesca. Era como se ele tivesse entrado em um jogo sem querer, ganhado o prêmio, mas descoberto que não era aquele o jogo que queria jogar.

Essa rebeldia contra os valores dominantes coincidiu com o período mais vibrante do Novo Cinema Taiwanês. E o encontro dele com Hou Hsiao-hsien foi algo predestinado. De um lado, um cantor cansado da linha de montagem da indústria fonográfica; de outro, um diretor em busca do realismo extremo, quase “antidramático”. Juntos, esses dois definiram o que se pode chamar de “sintonia perfeita entre som e imagem”.

O silêncio que fala mais alto: quando Lim Giong se torna a “audição” de Hou Hsiao-hsien

Se me perguntam qual o significado de Lim Giong nos filmes de Hou Hsiao-hsien, eu digo: ele é o ouvido escondido atrás da câmera. Os filmes do Hou são cheios de pausas, planos longos, tomadas abertas e aquela aparente banalidade do cotidiano. O maior desafio para esse tipo de imagem é a trilha sonora. Colocar música demais soa piegas; de menos, corre o risco de ficar vazio. Mas Lim Giong sempre encontra o “momento exato”.

Em “Adeus, Sul, Adeus”, ele não usa sinfonias grandiosas para apelar ao sentimentalismo. Em vez disso, aposta em sintetizadores, misturando o som do vento, o barulho do trem nos trilhos e um violão meio etéreo. O que ouvimos ali não é “música de filme” no sentido tradicional, mas uma “atmosfera” de emoção. É como se você estivesse no interior de Chiayi, vendo Jack Kao e Annie Shizuka Inou desperdiçando o tempo, e o ar tivesse aquele cheiro pegajoso, de uma liberdade misturada com uma ponta de resignação. Lim Giong usa o som para entregar aos seus ouvidos o vento que não se vê, o suor que não se toca.

  • “Adeus, Sul, Adeus”: Não é só uma trilha sonora, é outra linha narrativa. O ritmo eletrônico simboliza a ansiedade das mudanças de época, enquanto a melodia cantarolada, quase imperceptível, é o último suspiro de saudade de um passado bom.
  • “Millennium Mambo”: A cena de abertura, com aqueles minutos em que Shu Qi caminha, ao som da música eletrônica psicodélica e de tom frio de Lim Giong, transporta o espectador para aquele Taipei de fim de século. Aquele “Hao Hao”, junto com a música, se tornou um clássico da história do cinema.
  • “O Mestre da Espada”: Neste filme, ele leva a coisa ao extremo. A música se torna minimalista, quase imitando o vento e o canto dos pássaros, fazendo com que a imagem retorne ao “qi” e à “melodia” mais primordiais. Ele não tenta mais criar uma melodia deliberadamente; deixa que o som se torne parte do espaço.

Nos bastidores, seguindo “em frente”

Ao longo dos anos, Lim Giong praticamente desapareceu das telas. Ganhou o prêmio de trilha sonora no Festival de Cannes, mas ainda anda de bicicleta pelas ruas de Taipei, vai comprar ervas na rua Dihua e toca como DJ em casas noturnas. Alguns dizem que ele mudou, que ficou “esquisito”. Mas eu acho que ele nunca mudou. No fundo, ele ainda é aquele jovem que não queria ser definido nem amarrar a regras. Só que antes ele usava a voz para protestar; agora, usa o som para “virtualizar” um mundo.

Quando nós, os antigos cinéfilos, nos reunimos para conversar sobre os filmes de Hou Hsiao-hsien, sobre os filmes taiwaneses que assistimos naquela época, o nome Lim Giong é sempre aquele que nos enche de orgulho. Ele provou, com seu trabalho, uma coisa: um verdadeiro criador não precisa estar sempre sob os holofotes. Ele se transforma num feixe de luz que incide sobre aquela tela branca, iluminando a imagem mais autêntica da nossa terra. Esse é Lim Giong, um cantor que um dia quis levar todos “para a frente” e que acabou se tornando o artista que nos mantém na sala de cinema, olhando com atenção para Taiwan.