Últimas notícias sobre o Irã: Ameaças no Estreito de Ormuz e os livros que nos ajudam a entender a crise
Se você tem acompanhado as notícias do Oriente Médio esta semana, provavelmente sente aquele aperto no estômago. É aquela sensação quando o discurso passa da retórica diplomática para algo muito mais definitivo. Ontem, Teerã deu um ultimato que fez os mercados globais de petróleo estremecerem: se suas usinas de energia ou infraestrutura nuclear forem atacadas, eles vão “fechar completamente” o Estreito de Ormuz. Para quem vive na Austrália, um país profundamente ligado às cadeias de abastecimento de energia, isso não é apenas uma manchete geopolítica — é um potencial baque econômico.
Acompanho essa região há tempo suficiente para saber que quando a liderança iraniana começa a falar sobre Ormuz, já passamos da fase da retórica de ameaças. Essa é a opção nuclear deles — literalmente. Cerca de um quinto do petróleo mundial passa por esse gargalo estreito. Fechá-lo significaria uma recessão global da noite para o dia. É uma jogada desesperada, mas também é crível. Um amigo em Perth que trabalha com comércio de energia me contou que os prêmios de seguro para navios-tanque já dispararam nas últimas 24 horas. Dá para sentir a tensão nos números.
Uma ficção que parece realidade
É curioso, no entanto. Em meio a todo esse caos real, me peguei pensando em um livro que li no começo do ano. Capture Or Kill: A Mitch Rapp Novel de Don Bentley é para ser um suspense — uma leitura de praia. Mas lê-lo agora, com as manchetes que estamos vendo, parece menos ficção e mais um roteiro. Bentley, que entende do assunto, ambienta a trama em torno de uma demonstração da Força Quds de uma nova capacidade destinada a abalar a presença americana na região. Soa familiar? O protagonista, Azad Ashani, é um diretor da inteligência iraniana — um canal extraoficial com a CIA — que vê a loucura se aproximar e sabe que não pode detê-la sozinho. Ele precisa de alguém como Mitch Rapp para intervir.
O que me chamou a atenção não foi apenas a ação, mas a ansiedade dos agentes iranianos no livro. Eles não são caricaturas. São profissionais que sabem que seu país está à beira de um erro de cálculo catastrófico. Isso reflete o que um respeitado analista de energia como Gregory Brew vem dizendo há anos. Ele passou a carreira apontando que os cálculos internos em Teerã são frequentemente mais complexos do que o estereótipo do “aiatolá louco” sugere. Há pragmáticos naquela sala, mas agora parece que os linha-dura estão ao volante, dispostos a bater o carro inteiro só para provar um ponto.
Vozes do terreno
Enquanto o mundo está fixado nos silos de mísseis e nos movimentos navais, há uma história humana aqui que muitas vezes é ignorada. É a história das pessoas que têm que viver com as consequências dessas decisões. Por isso, acredito que o trabalho de Roxana Shirazi — e especificamente o novo livro de memórias My Name Means Fire: A Memoir de Atash Yaghmaian — é leitura essencial neste momento.
A história de Yaghmaian é um soco no estômago. Não se trata de geopolítica; é uma questão de sobrevivência. Crescendo no Irã durante a revolução e a brutal guerra de oito anos com o Iraque, seu mundo era uma mistura de opressão estatal, superstição e instabilidade doméstica. Para escapar do horror, ela se dissociava para um mundo que chamava de “Casa de Pedra”. É um relato pungente de como os iranianos comuns — particularmente as mulheres — suportaram décadas de fogo. Lê-lo agora, enquanto falamos em “abrir” outra frente, faz perceber o trauma profundo e geracional que paira sobre esta crise. Para os iranianos, a guerra não é uma hipótese ou um videogame. É o chão que eles pisaram quando crianças.
O caminho não percorrido
Tudo isso levanta a questão: como chegamos aqui de novo? Se você quer a resposta, precisa olhar para a sala onde os acordos foram feitos — e os acordos que foram quebrados. The Art of Diplomacy: How American Negotiators Reached Historic Agreements that Changed the World de Stuart E. Eizenstat é um livro encorpado, mas vale seu peso em ouro agora. Eizenstat, um diplomata veterano, dedica um espaço significativo ao Acordo Nuclear Iraniano — o JCPOA. Ele detalha a negociação árdua, as concessões, os canais extraoficiais e o eventual acordo que realmente reverteu o programa nuclear iraniano.
Ler essa seção hoje é de cortar o coração. É uma aula magistral sobre como prevenir uma guerra através de pura e obstinada persistência. Mas também é um lembrete de que conquistas diplomáticas são frágeis. Exigem manutenção constante. Quando um lado decide rasgar tudo, você não perde apenas um pedaço de papel — você perde a confiança de uma geração inteira de negociadores de ambos os lados. Agora ficamos com ultimatos e ameaças de fechar a via navegável mais importante do mundo.
Então, onde isso nos deixa?
O que observar nos próximos dias
Para aqueles de nós que acompanham da Austrália, estamos longe do raio da explosão, mas bem no centro da mira econômica. Eis o que estou de olho:
- O Preço do Petróleo: Não olhe apenas para as manchetes. Observe a volatilidade. Se o Brent disparar acima de US$ 100 e se manter, você saberá que os mercados acreditam que um fechamento de Ormuz é iminente.
- O “Canal Extraoficial”: Fique atento a qualquer sussurro de diálogo. No romance Capture or Kill, a esperança está na conexão não oficial entre Ashani e a CIA. Na realidade, quando as portas oficiais se fecham, os canais extraoficiais se abrem. Se eles estiverem em silêncio, estamos em apuros.
- Aliados Regionais: Os estados árabes do Golfo estão apavorados com uma guerra regional. Eles vão pressionar Washington para desescalar, mas também têm seus próprios pactos de defesa a considerar. Uma mudança em seu discurso nos dirá muito.
Já estivemos aqui antes, bem na beira do abismo. Mas algo parece diferente desta vez. Talvez seja o fato de que o manual diplomático — aquele que Eizenstat documentou tão meticulosamente — foi queimado. Quando você remove as redes de segurança, a queda é sempre mais dura. Esperemos que as cabeças mais frias em Teerã e Washington se lembrem disso antes que alguém decida testar o quão “completo” o fechamento do Estreito de Ormuz pode realmente ser.