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Expulsões de inquilinos: nos bastidores de um oficial de justiça, entre o aumento dos casos e a busca por humanidade

Sociedade ✍️ Jean-Baptiste Lefèvre 🕒 2026-03-21 10:49 🔥 Visualizações: 3

O número tem um efeito explosivo no pequeno mundo do setor habitacional: os despejos forçados de inquilinos aumentaram 60% em dois anos. Fala-se disso como uma estatística, mais um indicador da crise. Mas por trás dessa porcentagem, existem vidas, apartamentos esvaziados, fechaduras trocadas. E no meio desse caos administrativo e humano, um ator sobre o qual quase nada se sabe: o oficial de justiça.

Um oficial de justiça consultando um processo durante um procedimento de despejo

Fui conhecer esses homens e mulheres que vestem a beca e a carapuça, não no tribunal, mas na linha de frente. Passei uma manhã com um dos escritórios mais renomados da capital, a Selarl ACTAY Carolle YANA OFICIAL DE JUSTIÇA. Em seus escritórios no 17º arrondissement, o clima não tem nada de um tribunal. É mais um posto de comando onde se acumulam processos, agendas e pedidos de socorro.

Carole Yana, que dirige este escritório há mais de quinze anos, me recebe entre duas audiências. “A profissão mudou”, diz ela, fechando uma pasta. “Há cinco anos, éramos oficiais de diligências, um nome que assustava. Hoje, somos oficiais de justiça, e somos sobretudo o último elo de uma corrente que está se rompendo. A demanda explode, mas nosso papel também é desarmar os ânimos.

Para entender a magnitude da tarefa, é preciso entender o que está em jogo nos últimos dois anos. Nos últimos meses, várias medidas flexibilizaram as regras para os proprietários, especialmente na gestão de aluguéis atrasados. Oficialmente, para desobstruir o mercado. Na prática, os processos se sucedem em um ritmo frenético. A consequência direta é o que vemos hoje nos números: uma multiplicação das notificações de cobrança e, por trás disso, uma onda de despejos que não tem mais nada de excepcional.

A gente não chega com uma britadeira por prazer”, enfatiza Yana. “Antes de chegar a esse ponto, há tentativas de mediação, adiamentos, pedidos de prazo. Na metade dos casos, o inquilino nem aparece na audiência. Mas quando ele está lá, pode ter certeza de que a gente escuta.

O “fator humano” no centro da máquina judicial

A imagem do oficial de justiça que friamente coloca um lacre é um clichê. A realidade é muitas vezes um diálogo de última chance no patamar de um prédio. Vi isso com um dos colaboradores do escritório, que saiu naquela manhã para um despejo em Ivry. No local, o inquilino, um pai de família em processo de divórcio, abriu a porta de roupão, pálido. Não houve ameaças, apenas um desespero silencioso. O procedimento foi suspenso após um pedido de assistência social. O oficial de justiça atuou como um elo de ligação, não como um carrasco.

O que muitas vezes se esquece é a complexidade jurídica que precede esse momento. O procedimento é uma verdadeira via-crúcis:

  • A notificação de cobrança: um ato formalizado pelo oficial de justiça que inicia oficialmente a contagem regressiva.
  • A citação: o processo vai para o juiz das questões de proteção.
  • A decisão do tribunal: se for favorável ao proprietário, ela abre caminho para o despejo.
  • A requisição de força policial: é o prefeito quem, em teoria, dá o sinal verde final, uma autorização que às vezes leva meses para sair.

Carole Yana aponta outro aspecto ignorado no debate: a responsabilidade do Estado. “Estamos na linha de frente, mas não decidimos a data. Às vezes, esperamos seis meses após a sentença até que a polícia tenha disponibilidade. Enquanto isso, a dívida acumula, a tensão aumenta. E quando o despejo finalmente acontece, muitas vezes é psicologicamente mais violento.

O escritório ACTAY, um elo discreto, mas essencial

Nesse contexto, estruturas como a Selarl ACTAY Carolle YANA OFICIAL DE JUSTIÇA não são mais apenas escritórios de diligências. Tornaram-se escritórios de consultoria em prevenção. A equipe, de uma dúzia de pessoas, passa tanto tempo analisando os balanços financeiros dos inquilinos em dificuldade quanto gerenciando as agendas dos despejos. “Nosso trabalho também é alertar os proprietários quando um processo vai levar a um beco sem saída. Às vezes, o melhor serviço que podemos prestar a eles é dissuadi-los de ir até o fim.

Numa altura em que os números recordes estão nas manchetes, em que a imprensa especializada estampa a flexibilização das regras para os locadores, e em que outros relatórios recentes alertam para a crise habitacional, os oficiais de justiça estão na encruzilhada de todos esses interesses antagônicos. Eles são os executores de uma política, mas também os últimos baluartes antes do caos.

Ao sair do escritório, lembro-me da frase de Carole Yana: “Chamam a gente para sermos a memória da lei, mas gostaríamos apenas que nos dessem meios para também sermos os garantidores de uma saída digna.” Num país onde a moradia se tornou um bem escasso, o papel deles, discreto e técnico, nunca foi tão significativo. E se a justiça deve ser cega, eles a encaram de frente, uma fechadura de cada vez.