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Jürgen Habermas morre aos 96: o fim de uma era para a filosofia e o nosso pensamento sobre a democracia

Cultura ✍️ Emma Jansen 🕒 2026-03-14 19:47 🔥 Visualizações: 1
Jürgen Habermas, filósofo e sociólogo alemão

A notícia chegou no sábado à noite, primeiro como um sussurro nos jornais alemães, depois em todos os lugares: Jürgen Habermas faleceu. O gigante alemão da filosofia, o último grande nome da Escola de Frankfurt, morreu aos 96 anos. E embora vivesse em Starnberg, perto de Munique, seus pensamentos sempre estiveram igualmente perto, inclusive aqui no Brasil. Em cada discussão sobre a Europa, em cada debate sobre integração ou sobre o papel da comunicação pública, havia um pouco de Habermas.

Uma vida entre livros e as frentes quentes do seu tempo

Quem diz Habermas, diz Philosophische Texte. Gerações de estudantes – também na USP, Unicamp e UFRJ – debruçaram-se sobre elas e foram moldados por elas. Seu trabalho inicial sobre a esfera pública, Mudança Estrutural da Esfera Pública, continua sendo a base para quem quer entender o que dá errado com as mídias sociais e a polarização. Mas ele não era um homem que permanecia na torre de marfim. Anos atrás, ouvi de um colega mais velho como Habermas, nos anos 80, debatia com Foucault e, mais tarde, teve palavras decisivas sobre a reunificação alemã. Ele sempre defendeu o diálogo racional, o melhor argumento. Em uma era de gritos e tuítes, ele era o farol da razão.

Muito mais que um pensador alemão

Sua influência foi muito além da filosofia. No livro Cinquenta Pensadores-Chave nas Relações Internacionais, ele figura ao lado de gigantes políticos como Morgenthau e Kissinger. Por quê? Porque suas ideias sobre a ação comunicativa e o poder do consenso ofereciam uma alternativa à realpolitik fria e calculista. Ele acreditava que países, assim como pessoas, podem dialogar e, por meio de argumentos, chegar a um entendimento comum. Utopiano? Talvez. Mas foi o motor por trás da unificação europeia, que ele sempre defendeu com paixão.

Nos últimos anos, ainda lançou livros densos e importantes. Como Auch eine Geschichte der Philosophie, esse magistral panorama no qual ele examina toda a filosofia ocidental à luz de sua própria crença na razão comunicativa. É como se, até o fim, ele tivesse continuado o diálogo com os grandes pensadores do passado. E houve também aquele livro maravilhoso de um estudioso dinamarquês, O Farol da Razão. Sobre Jürgen Habermas, que mostrou como ele foi um farol para toda a Europa.

Consenso e dissenso: o coração da democracia

O que tornava seu pensamento tão especial é que ele nunca se contentava com oposições simples. Em seu trabalho sobre Consenso e Dissenso, ele explicou que uma democracia saudável precisa de ambos: a busca pelo entendimento, mas também o direito a opiniões divergentes. É uma lição que ressoa profundamente aqui no Brasil, com nossa tradição de diálogo e busca de acordos. As melhores conversas em festas de família, bares ou até no Congresso são aquelas em que paramos de gritar e realmente ouvimos. Esse é o legado de Habermas.

Nas redes sociais, as reações se multiplicam. Desde sua morte, é como se todos parassem para refletir sobre o que perdemos com ele. Mas também: o que ganhamos com ele. Seu trabalho permanece. Está nas estantes de acadêmicos, nas anotações de estudantes e, mais importante, no modo como nos relacionamos. A situação ideal de fala sempre será um ideal, mas Habermas nos ensinou a continuar buscando-a. E isso, exatamente isso, talvez seja a maior homenagem.

In memoriam

  • Jürgen Habermas (1929-2026) foi um filósofo e sociólogo alemão.
  • Foi o principal representante da segunda geração da Escola de Frankfurt.
  • Seus conceitos-chave: esfera pública, ação comunicativa, consenso e dissenso.
  • Influente até o fim, com publicações recentes como Auch eine Geschichte der Philosophie.
  • Seu pensamento permeou as universidades brasileiras e o debate público.

Sentiremos sua falta. Mas enquanto continuarmos dialogando, ele permanecerá entre nós.