Arancha González Laya: o multilateralismo ferido diante da ameaça comercial de Trump
Nos últimos dias, o nome de Arancha González Laya voltou a ressoar com força nos círculos políticos e econômicos. Não é à toa: a ex-ministra de Relações Exteriores tornou-se uma das vozes mais lúcidas na hora de decifrar a tempestade perfeita que se aproxima do comércio global. Enquanto Donald Trump ameaça com uma nova frente tarifária que atingiria em cheio a Espanha e o resto da Europa, o olhar de Laya, sempre afiado e com um pé na academia e outro na linha de frente do debate internacional, nos obriga a prestar muita atenção.
A fragilidade do multilateralismo, segundo Laya
Há apenas algumas semanas, em um prestigiado fórum internacional, Arancha González Laya travou um duelo dialético de altíssimo voltagem com um analista político de primeiro nível. O título do debate dizia tudo: "Salvar o multilateralismo". Porque se há algo que Laya tem claro é que a ordem internacional baseada em regras, aquela que levou décadas para ser construída, está desmoronando sob nossos pés. Não é uma visão catastrófica; é a constatação de que, com o retorno de Trump à corrida pela Casa Branca, o livre-comércio como o conhecíamos entrou em fase terminal. Ela verbaliza isso com uma clareza que dói: estamos assistindo ao enterro da Organização Mundial do Comércio se os europeus não se ligarem e agirem em bloco.
A vez da China e o erro da desglobalização
Outro dos mantras que Laya repetiu em suas últimas intervenções — e que conecta diretamente com o longo título de uma conferência que deu o que falar, "China's Turn in the Trade War" (A Vez da China na Guerra Comercial) — é que o eixo do conflito não é mais apenas transatlântico. Pequim observa com paciência milenar como os Estados Unidos se enredam com seus sócios históricos. Para Laya, o verdadeiro perigo não é a tarifa da vez, mas que caiamos na armadilha da desglobalização forçada. Ela prefere falar em "de-risking" (redução de riscos), mas com ressalvas: não se trata de se desconectar da China, mas sim de fazer isso sem dar um tiro no próprio pé. E esse equilíbrio é, precisamente, o que os governos europeus, incluindo o espanhol, não conseguem encontrar.
Salários, inflação e a tempestade perfeita
O debate não estaria completo sem a vertente social. Em sua análise mais recente, intitulada "De-Risking and Wageflation" (Redução de Riscos e Inflação Salarial), Arancha González Laya lança um alerta que deveria gelar o sangue nos ministérios da Economia: a combinação de guerra comercial e transição energética está provocando uma wageflation (inflação salarial) difícil de gerenciar. Mas atenção, que não se interprete mal: Laya não é contra o aumento de salários. O que ela aponta é que, se as tarifas de Trump encarecerem as exportações espanholas — azeite, vinho, carne de porco —, as empresas terão menos margem e o emprego acabará sofrendo as consequências. Aqui na Espanha, os principais sindicatos já levantaram a voz pedindo uma resposta europeia coordenada que proteja o emprego, exatamente o que Laya vem pregando há semanas nos fóruns internacionais.
E a Espanha em tudo isso?
Enquanto em Berlim alguns apontam o dedo para o silêncio cúmplice de Merz diante das bravatas de Trump, aqui a voz de Laya se ergue como um contraponto necessário. Não é a primeira vez que a ex-ministra lembra que a Espanha, por seu tamanho e seu tecido produtivo, é um dos países que mais pode sofrer com uma guerra comercial dessa magnitude. Mas, ao contrário de muitas análises que ficam apenas na reclamação, ela propõe um roteiro claro:
- Reforçar a autonomia estratégica europeia sem cair em protecionismos estúpidos.
- Diversificar os parceiros comerciais para além de Estados Unidos e China, olhando para a América Latina e a África.
- Proteger os setores mais vulneráveis com políticas industriais ativas, não com subsídios a fundo perdido.
Em suma, quando se ouve Arancha González Laya hoje em dia, entende-se que não estamos diante de mais uma crise comercial. É o sintoma de uma mudança de época, e ela, com essa mistura de experiência de governo e visão acadêmica, tornou-se a tradutora perfeita do que está por vir. Olhem a foto que ilustra este artigo: aquele meio sorriso, aquele olhar que parece estar calculando três jogadas à frente. É a expressão de alguém que já viu esse filme e tenta nos avisar que, desta vez, o final pode ser diferente se não nos apressarmos em reescrever o roteiro.