Mazatlán: o esplendor turístico e a dura realidade que não podemos ignorar
Nesta semana, enquanto as manchetes internacionais mostravam os cartões-postais perfeitos de Mazatlán —seus pores do sol, o calçadão à beira-mar, as piscinas do Hotel Playa Mazatlán—, a cidade acordou com uma notícia de gelar o sangue: o suposto feminicida de Patricia, uma mãe buscadora assassinada no porto, foi preso. O contraste não poderia ser mais brutal. De um lado, o destino turístico por excelência do Pacífico mexicano; do outro, a realidade de um estado, Sinaloa, que continua sangrando pelas feridas da violência de gênero e do desaparecimento forçado.
A miragem da Pérola do Pacífico
Para o viajante que chega pela primeira vez, Mazatlán é um sonho realizado. O calçadão mais longo do mundo, o ritmo das bandas sinaloenses, a possibilidade de comer peixe grelhado na praia. Hotéis como o emblemático Hotel Playa Mazatlán, com sua arquitetura colonial e tradição familiar, passam décadas construindo uma marca imbatível. Mas o negócio do turismo —e isso sabemos nós, que acompanhamos a economia regional— depende de um ativo intangível: a percepção de segurança. E quando uma buscadora é assassinada no município, a imagem do paraíso se estilhaça.
Não é apenas o crime, é o que ele representa. Patricia fazia parte daquele exército de mulheres que, em meio à crise forense do país, saem em busca de seus filhos desaparecidos. Que a matassem, justamente ela, é uma mensagem atroz: buscar dói e, em alguns casos, custa a vida. A Llorona de Mazatlán, a personagem lendária que assustava nossos avós com seu lamento pelos filhos que perdeu, hoje tem rostos reais. São mães com pás e máscaras que percorrem morros e fossas clandestinas. O mito virou estatística.
Futebol, mulheres e resistência
Curiosamente, em meio a essa tempestade, há um setor que está dando luta da trincheira esportiva: o Mazatlán Fútbol Club. Tanto a equipe masculina quanto o Mazatlán Fútbol Club Femenil se tornaram um símbolo de identidade para os locais. Ir ao estádio Kraken é, para muitas famílias, um ato de resistência, uma tentativa de recuperar o espaço público e a alegria. Mas o futebol feminino, em particular, carrega um simbolismo extra. As jogadoras representam essa mulher mazatleca que se recusa a ser vítima, que luta por um espaço no campo e na sociedade. Vê-las correr atrás da bola é também ver Patricia, as buscadoras, todas aquelas que não desistem.
No entanto, a euforia dos gols não pode se desconectar da realidade. Quando as jogadoras do time feminino entram em campo, o fazem sabendo que em sua cidade há mulheres que não têm a mesma proteção. O clube, como instituição, tem uma enorme oportunidade de se tornar uma voz ativa e não apenas entretenimento. Porque o turismo esportivo, que tanto dinheiro gera na cidade, também precisa de ambientes de paz.
O desafio comercial de uma marca manchada
Da minha perspectiva como analista, o grande desafio de Mazatlán nos próximos anos não será construir outro hotel de luxo nem ampliar o aeroporto. O desafio é gerir a reputação. E é aqui que o setor privado deve desempenhar um papel muito mais ativo. Não se trata apenas de colocar filtros de segurança na entrada do Hotel Playa Mazatlán ou contratar mais vigilância privada. Trata-se de entender que a estabilidade social é um requisito para o negócio.
Já vi isso em outros destinos: quando a violência atinge, os voos são cancelados, as reservas caem e os investidores retiram seus capitais. Para evitar isso, precisamos de estratégias que vinculem os empresários às comunidades locais. O que aconteceria se os hotéis apoiassem diretamente os coletivos de buscadoras? Se os estádios do Mazatlán Fútbol Club destinassem um minuto de silêncio não só às celebridades, mas às vítimas anônimas? A conexão emocional com o cliente —o famoso storytelling— não pode ser construída sobre uma mentira.
Três pontos-chave para entender o momento que Mazatlán vive
- O impacto no turismo: Embora os visitantes continuem chegando, especialmente canadenses e americanos, os alertas de viagem são atualizados constantemente. Um único incidente grave na zona hoteleira pode destruir anos de promoção. O caso Patricia, por ocorrer num contexto de feminicídio, tem uma repercussão midiática que transcende o local.
- A oportunidade do esporte feminino: A paixão pelas Cañoneras (como é conhecido o time feminino) está crescendo. É um público jovem, familiar e ansioso para se identificar com valores positivos. As marcas que patrocinam a equipe podem liderar discursos de equidade e paz.
- A cultura como espelho: O mito de La Llorona é encenado todos os anos no carnaval, mas hoje a lenda é vivida nas ruas. Os tours noturnos que contam a história poderiam incluir uma reflexão sobre as mulheres reais que choram seus mortos. É uma forma de educar o turista sem estragar a experiência.
O custo da indiferença
Dói-me dizer isso, mas enquanto escrevo estas linhas, sei que muitos empresários prefeririam que não se falasse do assunto. "Não afugente o turismo", dirão. Mas a história mostra que silenciar os problemas só aumenta a bomba. Mazatlán não pode se dar ao luxo de repetir os erros de outros destinos que ignoraram os sinais até que fosse tarde demais. O assassinato de Patricia, uma mãe que só queria encontrar seu filho, deve ser um ponto de inflexão. A prisão de seu suposto feminicida é um primeiro passo, mas não o último.
O Mazatlán Fútbol Club joga a cada quinze dias, o Hotel Playa Mazatlán continua recebendo hóspedes, e as ondas quebram na areia com a mesma cadência de sempre. Mas a cidade tem duas faces. Uma é vendida pelos cartões-postais; a outra, carregada nos ombros das mulheres que buscam nos arbustos. Como sociedade, somos obrigados a fechar essa lacuna. Porque, no final, o melhor negócio, o único sustentável, é aquele que se constrói sobre a verdade e a justiça.