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Presos: Cuba liberta 51 detentos, um gesto político antes da volta de Trump?

Mundo ✍️ Jean-Marc Morandini 🕒 2026-03-13 01:09 🔥 Visualizações: 2
Presos cubanos libertados reencontram suas famílias em Havana

Há dias em que o noticiário parece roteiro de cinema. Não um suspense policial sombrio nos moldes de Denis Villeneuve – embora seu magistral Prisoners (Os Suspeitos) tenha vindo imediatamente à mente –, mas sim um thriller político com reviravoltas dignas de uma série como The Inmate (O Preso). Nesta quinta-feira, Havana lançou uma bomba-relógio no tabuleiro internacional: 51 presos políticos foram libertados. Um número que impacta, um timing que instiga, e uma única pergunta que arde nos lábios: a quem beneficia esse espetáculo?

Aqui, não há espaço para ingenuidade. Se você acompanhou a novela cubano-americana nos últimos anos, sabe que tudo é uma questão de símbolos e calendários. Esta libertação em massa, confirmada por várias fontes diplomáticas no Vaticano, não é um presente de Natal adiantado. É um lance de xadrez. E a sombra que paira sobre o tabuleiro é, obviamente, a de Donald Trump, pronto para o confronto em seu retorno à Casa Branca. Os mais experientes, como eu, lembram-se de seu primeiro mandato: o endurecimento do embargo, o abandono do degelo com Obama... um retrocesso brutal. Então, o que Havana nos diz hoje?

Havana antecipa o choque Trump: um gesto para quem?

Vejamos os fatos. De um lado, o regime de Miguel Díaz-Canel anuncia a libertação desses presos, um gesto humanitário que a Santa Sé vinha pedindo há meses. De outro, soubemos extraoficialmente que a administração Biden, por canais discretos, teria elogiado a iniciativa. Mas não nos enganemos: não é a Joe Biden que se está fazendo a corte. É um argumento de peso para ser exibido sob o nariz da equipe Trump. "Olhem, estamos dialogando, fazendo concessões, não somos o antro do diabo que descrevem." A mensagem é clara, mas o destinatário, como se sabe, não é muito chegado a nuances.

E é aí que a coisa complica. Para um olhar experiente, essa manobra pode parecer tanto perigosa quanto corajosa. Ao libertar esses presos, Cuba perde alavancas de pressão internas e oferece um ângulo de ataque aos seus detratores. Os mais radicais, em Miami e Washington, gritarão manipulação, "teatro" para angariar simpatia da comunidade internacional. Dirão que não é suficiente, que outros presos ainda apodrecem nas prisões castristas. Mas isso é esquecer um pouco que, nesse jogo de enganos, Havana já não tem praticamente nada a perder. O cerco do bloqueio se aperta, a crise econômica está aí, visível nas filas e na escassez. Então, libertar presos também é aliviar um pouco a pressão das ruas e esperar por um afrouxamento das sanções em troca.

O Vaticano, mediador nos bastidores, e o peso dos símbolos

Falou-se muito do papel do Papa nessas negociações, e é inegável. O Vaticano, com sua diplomacia discreta, é um ator incontornável nesse tipo de questão. Mas, se eu fosse um pouco provocador, diria que essa história tem ares de Prisoners of the Ghostland (Prisoneiros do Reino Fantasma), aquele filme alucinado onde Nicolas Cage atravessa um universo paralelo para resgatar cativos. E se juntarmos a esse coquetel explosivo uma pitada de Prince Faggot, aquela obra underground dos anos 80 onde um soberano excêntrico tentava libertar seus súditos de uma prisão dourada, temos um roteiro digno dos melhores suspenses. Só que aqui, o território fantasma é o impasse político entre Cuba e os Estados Unidos. E os fantasmas são esses 51 homens e mulheres que finalmente reencontram suas famílias, libertos de um sistema do qual eram reféns.

A escolha do número, aliás, não é acidental. 51 presos. Isso ecoa, infelizmente, outras listas, outras libertações do passado. É um número que permite ao governo dizer "olhem, estamos fazendo um gesto significativo", ao mesmo tempo em que mantém o controle sobre o ritmo das reformas. Para as famílias, é a emoção crua, aquela vista nas imagens comoventes que chegam de Havana, os abraços em frente à prisão. Para nós, observadores, é mais um indicador de que o regime busca uma saída honrosa antes da tempestade política que se aproxima.

Então, o que devemos reter dessa novela?

  • Um timing eleitoral: Este anúncio chega exatamente no momento em que as pesquisas apontam Trump como favorito para a indicação republicana. Cuba quer pesar no debate americano.
  • Um gesto humanitário real: 51 presos e seus familiares experimentam um alívio imenso, e isso, nenhum cálculo político pode apagar.
  • Uma aposta arriscada: Ao libertar esses presos, Havana perde um instrumento de pressão e se expõe a críticas se a situação interna não melhorar.
  • Um precedente histórico: Lembramos dos acordos Obama-Castro, das visitas históricas. Hoje, estamos na ante-sala de um possível novo ciclo, ou de uma Guerra Fria 2.0.

Eu aposto uma garrafa de rum cubano que Donald Trump não dará a mínima. Que ele varrerá essa libertação com um gesto, classificando-a como "tentativa desesperada" de um regime que ele demoniza. Mas, enquanto isso, esses presos estão livres. Eles andam pelas ruas de Havana, Santiago ou Santa Clara. Eles respiram. E isso é uma vitória, mesmo que frágil, mesmo que política. No grande jogo do xadrez internacional, às vezes, um peão libertado pode mudar a face do mundo. Ou, pelo menos, a esperança daqueles que o habitam.