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Ángel Víctor Torres e a tormenta política em Telde: Até onde vai o dano colateral?

Política ✍️ Carlos M. Sánchez 🕒 2026-03-03 20:31 🔥 Visualizações: 2

O que parecia ser mais um verão na política municipal de Telde explodiu pelos ares. Há trinta anos que cubro a informação nas Canárias, e poucas vezes vi uma tormenta tão perfeitamente orquestrada para desgastar um adversário. O nome que paira sobre todas as conversas, o epicentro do sismo, é, como não podia deixar de ser, o de Ángel Víctor Torres. Não se engane o leitor: embora a poeira se levante agora em Telde, os estilhaços vão diretos à Moncloa canária.

Ángel Víctor Torres em um ato institucional em Telde

O alvo era Torres, o tiro saiu em Telde

Tudo começou, como costuma acontecer nestes casos, com uma manobra de desgaste na periferia. A maquinaria da chamada "imprensa de ultradireita" ou "ultra", como a definem em algumas análises políticas, colocou o foco em Telde. Qual o objetivo imediato? O vereador Héctor Suárez. Mas qualquer aficionado por pôquer político sabe que não se aperta um peão menor sem querer dar xeque no rei. E o rei aqui, o grande prejudicado se a operação prosperar, é o secretário-geral do PSOE canário e presidente do Governo das Canárias, Ángel Víctor Torres.

A estratégia era tão antiga quanto eficaz: envolver um ex-prefeito de Telde nos supostos "esquemas" de uma conhecida trama de corrupção nacional. A acusação, lançada sem provas conclusivas por meios digitais de trajetória duvidosa, buscava respingar diretamente em Torres. Afinal, se conseguires instalar no imaginário coletivo que "os de Torres" estão manchados pela corrupção nos seus feudos históricos, o dano para umas eleições gerais é incalculável. É a tática do respingo: não importa se te sujas, basta que a lama chegue à tua roupa.

Héctor Suárez: o vereador que disse basta

Mas aqui chegou o primeiro erro de cálculo dos estrategistas da oposição. Subestimaram o vereador. Héctor Suárez, em vez de baixar a cabeça e esperar que a tormenta passasse, saltou para a arena com uma exigência: retratação pública. Não só se defendeu a si mesmo, como colocou na mesa a autêntica natureza da operação. Acusou diretamente certos meios de manipulação e de usar a sua imagem para difamar. E o mais importante, fê-lo com a contundência de quem sabe que o objetivo final não era ele, mas sim o seu chefe de fileira. Ao pedir essa retratação, o que Suárez fez foi expor os cabos da conspiração. De repente, os holofotes que procuravam iluminar uma suposta trama corrupta, o que revelaram foi uma operação de assédio e derrube contra a figura de Ángel Víctor Torres.

A imprensa digital: Quarto poder ou braço executor?

O mais fascinante — e preocupante — deste caso é o papel dos altifalantes. Certos portais digitais da ilha, que enchem a boca a falar de jornalismo, atuaram nesta ocasião como uma matilha. A expressão que melhor define o seu comportamento é a que se ouviu nos corredores do consistório: "atiram-se à piscina só para difamar". Publicaram, insinuaram, vincularam. Tentaram construir uma realidade paralela onde o vereador Suárez e, por extensão, Ángel Víctor Torres, são peças de um esquema corrupto.

Para um analista, o negócio aqui é duplo:

  • O negócio do clique: A polêmica vende. Quanto mais grossa é a acusação, mais visitas. É o pão nosso de cada dia na imprensa digital de trincheira.
  • O negócio político: Desgastar o adversário semeando a dúvida. Não precisas ganhar o julgamento, só precisas que as pessoas vejam a manchete. O dano reputacional está feito antes de chegar a primeira sentença absolutória.

E no meio deste lamaçal, a figura de Torres emerge, uma vez mais, como o para-raios. Porque na política canária, tudo o que acontece em Gran Canaria, e mais concretamente em praças simbólicas como Telde, acaba por reverberar na sede da Presidência.

A reação silenciosa e o alto custo comercial

O que me leva à reflexão mais profunda, a que realmente importa para quem mexe os cordelinhos da economia e do investimento nestas ilhas. Este tipo de guerras de desgaste têm um custo oculto altíssimo. Quando a arena política se torna um pântano mediático, as Canárias inteiras perdem. Os investidores estrangeiros, aqueles que examinamos com lupa a estabilidade institucional antes de pôr um euro na mesa, veem estas notícias e perguntam-se: "Que raio se passa ali? Há um problema de corrupção estrutural ou é uma briga de cães políticos?".

E essa incerteza, essa mancha de indefinição, é letal. Não importa que no final tudo seja uma cortina de fumo. Não importa que Ángel Víctor Torres saia absolutamente impoluto desta, como tudo indica que acontecerá. O simples facto de o ruído existir, de as manchetes durante uma semana falarem de "esquemas" e "ex-prefeitos" ligados ao seu nome, já deixou marca.

Já vi projetos de expansão hoteleira serem cancelados por menos. Já vi fundos de investimento retirarem as suas ofertas por uma instabilidade política muito menor do que esta. Por isso, quando analiso o caso de Torres e a refrega em Telde, não vejo apenas uma anedota política. Vejo um sintoma de um problema crónico que pagamos todos: o custo de uma polarização que transforma a política num ringue e os líderes em sacos de boxe. E enquanto eles lutam, o verdadeiro negócio, o desenvolvimento económico que todos ansiamos, fica à espera na porta, a olhar para o relógio e a decidir se vale a pena sentar-se à mesa.