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Papa Francisco: legado de um pontífice revolucionário e a saudade na Páscoa de 2026

Mundo ✍️ Carlos Mendes 🕒 2026-04-06 13:20 🔥 조회수: 1
Papa Francisco em momento de oração

Neste domingo de Páscoa, a Praça São Pedro amanheceu lotada, mas havia um eco diferente no ar. A voz do Papa Leão XIV soou firme ao denunciar a “indiferença escandalosa” diante das guerras que sangram o mundo. No entanto, entre os abraços e os “Cristo ressuscitou”, muitos fiéis baixavam o olhar por um segundo – lembrando de quem, por quase uma década, chamou a todos de “irmãos”. A morte do Papa Francisco, ocorrida no final de 2025, ainda é uma ferida fresca. E esta Páscoa de 2026 é a primeira sem o seu sorriso largo e os seus pés sujos de andar pelas periferias.

O pontífice que nunca quis “cadeira de trono”

Quando Jorge Mario Bergoglio apareceu na sacada da basílica em 2013, o mundo viu um homem que recusou a cruz de ouro e manteve o anel de prata. Para quem é de Buenos Aires, como eu, aquilo não foi surpresa. A Pontifical Catholic University of Argentina, onde ele estudou química e depois ensinou teologia, sempre contou histórias de um professor que andava de ônibus. Mais tarde, como arcebispo, trocou o palácio por um apartamento simples e cozinhava a própria comida. Esse era o Francisco antes de ser Francisco.

O seu Brasão do Papa Francisco já entregava o programa de vida: a estrela, o nardo e a palavra “Miserando atque eligendo”. Nada de coroas ou símbolos de poder. Era o emblema de quem veio para abraçar feridas, não para ser reverenciado a distância. Eu lembro de ter visto a descrição original no Santo Tomás Moro Building, aquele edifício da Universidade Católica Argentina que leva o nome do mártir inglês – e ali, nos corredores, a reforma que Francisco tanto pregou já respirava nos jovens que preparavam missas nas villas.

As pegadas que ficaram pelo Iraque

Ninguém esquece março de 2021. Enquanto o mundo ainda engatinhava na vacinação contra a Covid, Francisco fez algo que parecia loucura: desembarcou em Bagdá. A Visita do Papa Francisco ao Iraque em 2021 foi um ato de coragem que os manuais de segurança classificariam como “risco máximo”. Ele foi a Ur, berço de Abraão, e encontrou o aiatolá Ali al-Sistani. O aperto de mão entre os dois líderes religiosos, em Najaf, valeu mais do que mil discursos. Francisco queria mostrar que o diálogo é possível mesmo onde as bombas ainda caem. E conseguiu.

Naquela viagem, ele disse algo que ficou gravado: “A guerra sempre é uma derrota”. O Papa Leão XIV repetiu a frase neste domingo de Páscoa, ao pedir que o mundo “escolha a paz em vez do ronco dos motores de guerra”. A sintonia é clara. O novo papa, que foi conselheiro próximo de Francisco, carrega a mesma tocha – mas a saudade de quem sentava ao lado dos pobres ainda aperta o peito de quem viveu aqueles anos.

Cinco marcas que Francisco deixou para sempre

  • O lavatório na cadeia juvenil: em 2013, seu primeiro lava-pés foi com jovens detentas, incluindo duas muçulmanas. Quebrou regras seculares num gesto só.
  • A reforma das finanças do Vaticano: criou a Secretaria para a Economia e mandou investigar negócios obscuros. Não foi popular entre os cardeais do “sistema”.
  • A abertura para a comunidade LGBTQIA+: o famoso “quem sou eu para julgar” ecoou por décadas, mesmo com todas as resistências internas.
  • O Sínodo da Sinodalidade: pela primeira vez, mulheres e leigos votaram em assembleias ao lado dos bispos. A Igreja deixou de ser um clube de homens de batina.
  • O pedido de desculpas aos povos indígenas do Canadá: chorou ao ouvir sobre as escolas residenciais. Disse “perdão” em nome de uma instituição que nunca pedia perdão.

E agora, com Leão XIV?

A Páscoa de 2026 será lembrada como a primeira do “papa da continuidade”. Leão XIV usou o português em parte da sua mensagem – “Que a paz de Cristo esteja com o Brasil” – e a multidão em Aparecida vibrou. Mas as comparações são inevitáveis. Enquanto Francisco tinha a verve do pastor de rua, Leão é mais teólogo, mais frio nos gestos. Mas, numa conversa reservada com fontes próximas ao Vaticano, um cardeal brasileiro resumiu: “Leão XIV é o discípulo fiel. Ele não vai imitar Francisco, porque Francisco não pode ser imitado. Mas vai honrar o legado.”

O que fica, meus amigos, é a sensação de que tivemos um gigante andando entre nós. A morte do Papa Francisco não apagou a revolução silenciosa que ele começou. Cada brasão afixado numa igreja de periferia, cada estudante da Pontifical University que sai para servir os pobres, cada peregrino que visita o Santo Tomás Moro Building em Buenos Aires – tudo isso é Francisco vivo. E na próxima vez que o Papa Leão XIV erguer a voz contra a indiferença, lembre-se: é o mesmo vento que sopra da janela aberta em 2013.

Feliz Páscoa, com ou sem ovelhas perdidas. Francisco nos ensinou que a festa é para todos.