Após a queda, a hora das decisões estratégicas
Você viu isso? O preço do ouro acabou de nos proporcionar uma daquelas reviravoltas que ficam para a história. Há poucos dias, chegamos perto dos 4.000 dólares a onça, um patamar psicológico que fez todo mundo salivar. E aí, no espaço de algumas poucas sessões, levamos um baque. A maior queda semanal desde os anos 80, nem mais, nem menos. Se você levantou uma sobrancelha ao ver as cotações despencarem, eu entendo. Mas, em vez de assistir aos números passarem como um mero espectador, vamos parar para analisar o que realmente está em jogo.
Um mergulho histórico após um pico histórico
Ainda há quinze dias, os ponteiros estavam explodindo. O metal amarelo acumulava recordes, impulsionado por uma demanda por ativo refúgio que nunca foi tão forte. Depois, o cenário mudou bruscamente. O preço do ouro e da prata sofreu uma correção de rara magnitude. Em uma semana, o lingote perdeu quase 5,6%, uma sangria que os veteranos do mercado não viam desde os tempos sombrios do início dos anos 80. Por que tanta aversão, num momento em que o clima geopolítico continua elétrico? É aí que a coisa fica interessante.
O culpado não é uma quebra repentina. É uma distensão brusca nos prêmios de risco. A escalada que se temia no Irã não aconteceu, ou pelo menos não na forma apocalíptica que alguns cenários previam. Com isso, o mecanismo é implacável: quando o medo de uma conflagração regional diminui, o prêmio de segurança do ouro derrete como neve no sol. Eu estava conversando ontem com um velho lobo da sala de operações, e ele me lembrou de uma verdade que esquecemos rápido demais: o ouro não gosta de certeza. Ele vive na incerteza, alimenta-se da dúvida. Assim que os investidores consideram que a tempestade geopolítica passou de "pior cenário" para "tempestade em copo d'água", eles reajustam as posições.
O grande jogo das taxas de juros e do dólar
Mas seria muito simples olhar apenas pelo prisma iraniano. O preço do ouro em todas as moedas nos lembra de outro parâmetro, muitas vezes mais poderoso que mísseis: o dólar. E, a propósito, o que o Fed (o banco central americano) faz. Nas últimas semanas, as expectativas sobre as taxas foram sacudidas. Um indicador de inflação um pouco mais persistente do que o previsto, falas de banqueiros centrais sugerindo que será preciso ter paciência... Tudo isso fortalece o dólar. E para o ouro, cotado em dólares, é mecânico: um dólar forte é um freio para os compradores estrangeiros.
Vejo muitos comentários nas redes sociais gritando "escândalo", como se o metal amarelo tivesse traído sua reputação. É porque não o conhecem bem. O ouro não é um investimento linear, é um vulcão. Quedas violentas fazem parte do seu DNA, especialmente após fases de euforia. O que me interessa pessoalmente é ver quem está se aproveitando dessas liquidações. Os bancos centrais, especialmente os asiáticos, continuam comprando. Os investidores individuais, por sua vez, tendem a querer esperar o fundo do poço. Um erro clássico.
- Os fundamentos não desapareceram: a dívida global continua colossal, e os bancos centrais não vão baixar a guarda do dia para a noite.
- O momento das compras: quedas como a que acabamos de viver foram historicamente pontos de entrada excelentes para investidores com um horizonte de 12 a 18 meses.
- A diversificação cambial: observar o preço do ouro Godot e Filhos ou outras referências locais permite capturar as disparidades entre as regiões geográficas. Nem tudo se decide apenas em Londres ou Nova York.
Repensando a estratégia: o ouro não é (apenas) um escudo
Um dos erros que vejo com frequência é querer opor o ouro às ações, ou o ouro ao setor imobiliário. É um falso debate. O interesse do metal precioso hoje é que ele se tornou um verdadeiro barômetro da confiança. Quando o preço do ouro cai enquanto as tensões persistem na aparência, não é o mercado que está ficando louco. É simplesmente que ele está incorporando um novo dado: o prêmio de risco imediato foi revisado para baixo, mas as fragilidades estruturais, essas, continuam lá.
Na minha opinião, esta correção é salutar. Ela elimina os excessos da especulação de curto prazo. Permite colocar as coisas nos eixos. Um gestor experiente não se pergunta se o ouro vai subir amanhã, mas sim qual é o seu peso na carteira para os próximos dois ou três anos. Se você não tem ouro, esta baixa pode ser uma oportunidade. Se já tem, é hora de verificar se a sua alocação ainda corresponde à sua real sensibilidade ao risco.
Falando em belas histórias e momentos de virada, isso me lembra o recente lançamento da edição francesa de Wings of Starlight. Por que estou mencionando isso aqui? Porque no mundo dos investimentos, assim como na literatura, há momentos em que tudo parece escurecer antes que a luz retorne. A chave é saber manter o rumo sem entrar em pânico. Aqueles que venderam suas posições às pressas nesta semana provavelmente vão se arrepender daqui a seis meses. Os outros, que estão aproveitando a queda para reforçar aos poucos, estão simplesmente aplicando a velha sabedoria dos mercados: compra-se quando os outros estão com medo, desde que a tese de investimento continue válida. E aqui, ela continua.
Então, seria o fim do mundo para o ouro? De forma alguma. O fim de um capítulo de especulação febril, sim. Dá lugar a uma fase de consolidação onde a paciência será a melhor das estratégias. E se quer minha opinião, numa economia mundial ainda tão dependente de déficits e da impressora de dinheiro, o metal amarelo ainda não disse sua última palavra. Ele vai recuperar o fôlego, como sempre fez. E daqui a alguns meses, quando olharmos no retrovisor, diremos que essa queda brutal foi apenas uma etapa, certamente violenta, mas necessária.