Bancos dos Emirados e Irã: de refúgio seguro para o dinheiro a linha de frente em tempos de guerra
Desde o momento em que os foguetes foram lançados em direção a Israel no final do mês passado, nós aqui nos Emirados vivemos um estado de alerta sem precedentes. Mas algo que ninguém esperava, nem mesmo os analistas mais pessimistas, era que os bancos dos Emirados se tornassem alvo direto. De repente, o Centro Financeiro Global de Dubai passou de uma fachada de vidro reluzente, que refletia a ostentação do capitalismo global, a uma cidade fantasma, com prédios sendo esvaziados um após o outro.
O que testemunhamos nestes dias não é apenas uma escalada militar passageira, mas sim um terremoto que está remodelando o mapa financeiro da região. Da noite para o dia, instituições gigantes como o Citi e o Standard Chartered viram-se forçadas a evacuar seus escritórios em Dubai, após uma clara ameaça iraniana de atacar "centros econômicos e bancos ligados aos EUA". É uma cena inédita, mesmo nos dias mais sombrios das tensões com o Irã. Teerã, que durante décadas dependeu de Dubai como uma tábua de salvação para contornar as sanções, está agora a bombardear essa mesma linha vital.
De "Babak Zanjani" a mísseis inteligentes
Para entender o paradoxo em que vivemos, é preciso voltar um pouco no tempo. A relação financeira entre Irã e Emirados sempre foi complexa e ambígua. Nos últimos anos, ouvíamos falar de empresários iranianos como Babak Zanjani, aquele comerciante que administrava uma intrincada rede de empresas de fachada em Dubai para transferir os petrodólares iranianos e driblar as sanções ocidentais. Dubai era uma espécie de "porta dos fundos" para Teerã negociar com o mundo. O volume de comércio bilateral entre os dois países saltou para US$ 28 bilhões em 2024, e meio milhão de iranianos viviam e trabalhavam no país.
Mas hoje, depois que o Irã lançou uma saraivada de 1700 mísseis e drones contra os Emirados, tudo mudou. Os bancos deixaram de ser meros intermediários passivos para se tornarem uma ferramenta de pressão nas mãos de Abu Dhabi. As informações que vazam dos corredores do poder indicam que os Emirados estudam seriamente congelar bilhões de dólares em ativos iranianos presos em seu sistema bancário. A ideia é simples: se Teerã usa esse dinheiro para financiar milícias e comprar armas, por que ele deveria permanecer em nossos cofres?
Uma batalha em duas frentes: o campo e o mundo digital
Mas o desafio não se limitou apenas ao aspecto militar ou político. A guerra atual expôs a fragilidade da infraestrutura digital de que Dubai tanto se orgulha. Quando os drones atingiram um centro de dados da Amazon no país, e outro no Bahrein foi bombardeado, o setor bancário sentiu um forte abalo. Vários serviços bancários online pararam, as transferências foram interrompidas, e um novo medo surgiu: os nossos dados estão seguros no subsolo ou na nuvem?
Foi então que o banco central interveio com uma medida emergencial e ousada. Pela primeira vez, permitiu que os bancos transferissem parte dos seus dados para servidores fora do país, numa quebra temporária das rígidas regras de governança de dados pelas quais os Emirados são conhecidos. É um reconhecimento explícito de que o "centro de dados" local já não é seguro em tempos de guerra cibernética e mísseis balísticos.
Os desafios que o setor enfrenta hoje:
- Continuidade do trabalho remoto: Os bancos globais evacuaram seus escritórios no centro financeiro, e a dependência de planos de continuidade de negócios tornou-se a base.
- Ameaça à infraestrutura: O ataque aos centros de dados expôs a fragilidade dos serviços bancários digitais diante de ataques cibernéticos e físicos.
- Destino dos ativos iranianos: A pressão aumenta para congelar todos os ativos do Irã ou de entidades a ele ligadas nos bancos dos Emirados.
- Aumento dos custos de seguro: A segurança da região está em jogo, e isso se reflete nos prêmios de seguro para escritórios e funcionários.
O grande jogo das moedas: o dólar está condenado?
Em meio a este caos, não podemos ignorar a grande questão que ronda as mentes dos investidores: BRICS vs. Ocidente: O Dólar Americano está Condenado? Esta pergunta é mais premente hoje do que era antes da guerra. Há apenas algumas semanas, os países do BRICS – do qual Emirados e Irã são agora membros oficiais – procuravam uma alternativa ao sistema Swift e tentavam criar uma moeda comum.
O paradoxo, porém, é que a guerra travou este ímpeto temporariamente. Enquanto os EUA ameaçam impor tarifas de 100% sobre os países do BRICS se abandonarem o dólar, é o próprio Irã que está a reavivar o valor da moeda americana todos os dias, ao bombardear os centros financeiros de Dubai. Os bancos evacuados nos Emirados são exatamente os mesmos escritórios regionais dos maiores bancos americanos e britânicos. Esta guerra, em vez de matar o dólar, fez com que todos corressem atrás da moeda verde como porto seguro em tempos de crise.
O mundo já experimentou as sanções internacionais durante a invasão russa da Ucrânia em 2022 e viu como o Ocidente congelou os ativos russos. Agora, Teerã teme que o destino do seu dinheiro em Dubai seja o mesmo do dinheiro de Moscou. Portanto, qualquer conversa sobre o congelamento de ativos iranianos hoje é um golpe preventivo contra a versão iraniana dos novos "Babak Zanjani", que gerem as riquezas do regime a partir de escritórios de luxo com vista para o Burj Khalifa.
No final, o que se passa nos Emirados é mais do que uma simples guerra por procuração. É o anúncio do fim da fase de "separação" entre o dinheiro e a política. Durante décadas, Dubai foi a "Suíça do Oriente", onde o dinheiro vinha de todo o lado e não se perguntava a identidade do seu dono. Mas os foguetes que caem no aeroporto de Dubai e aqueles que visam petroleiros no Estreito de Ormuz dizem uma coisa: já não há lugar neutro nesta confusão. Ou se está num campo, ou se é um alvo, e os nossos bancos hoje escolheram, voluntária ou forçosamente, estar na linha de fogo.