Kim Jong-un, o futuro da dinastia: a filha, as fotos no campo de tiro e a nova direção da Coreia do Norte
Há uma imagem, entre as vinte e sete divulgadas na noite de sábado pela agência de notícias estatal coreana, que vale mais do que qualquer discurso programático. É a foto que mostra Kim Jong-un junto com sua filha, a adolescente que muito provavelmente está destinada a herdar o trono mais isolado e impenetrável do planeta. Na foto, a garota - que os iniciados chamam de Kim Ju Ae - empunha um fuzil de precisão de nova geração, o mesmo que o pai acabou de presentear os altos comandos do exército. A fumaça sai do cano, o olhar é concentrado. É um instantâneo que grita "futuro" mais do que mil declarações oficiais.
Como alguém que acompanha a península coreana há anos, aprendi a ler nas entrelinhas da máquina de propaganda de Pyongyang. E nestas semanas, próximo ao encerramento do IX Congresso do Partido dos Trabalhadores, a mensagem é clara: a dinastia Kim não só se prepara para o próximo lustro de desafios geopolíticos, mas está encenando, com cuidado minucioso, o ato inaugural do seu quarto capítulo. Esqueçam as velhas análises: aqui não se fala apenas de ogivas nucleares, mas de um verdadeiro rebranding dinástico com altíssimo potencial comercial e midiático.
A ascensão de Ju Ae: da "filha amada" ao centro do poder
A primeira vez que a viram em público foi em novembro de 2022, durante o lançamento de um míssil balístico intercontinental. Na época, era a "filha amada". Hoje, com apenas treze anos, sua presença se tornou onipresente. Do desfile militar noturno em Pyongyang que fechou o congresso, ao campo de tiro onde manuseou uma arma, sua imagem está em toda parte. Nos corredores do poder, já se sussurra abertamente que Kim Ju Ae foi internamente designada como sucessora. Não se trata mais de uma figuração, mas de uma presença ativa, que participa dos eventos-chave e, sussurram fontes próximas ao regime, começa até a dar contribuições sobre as políticas.
Essa escalada visual é uma jogada no mínimo genial do ponto de vista do marketing do poder. Para um regime que fez da longevidade dinástica seu ponto forte, mostrar uma herdeira jovem, carismática e retratada com as mesmas poses hipermasculinizadas do pai (jaquetas de couro preto, gestos decididos) é uma operação de "extensão de marca" sem precedentes. E, pasmem, abre cenários comerciais insuspeitados. Há algum tempo, em sites especializados em memorabilia política, registra-se um aumento na procura por objetos que retratam o ditador.
- Bandeira de mesa da Coreia do Norte com Kim Jong-un 21 x 14 cm: Um item de colecionador que está se tornando item obrigatório para entusiastas de vexilologia e história contemporânea.
- Impressão artística Hipstory - 'Kim Jong un' Versão Hipster (50*50cm): A pop-art aplica o filtro "descolado" ao líder supremo, transformando-o num ícone pop para salas modernas e escritórios da moda.
Estes não são meros gadgets. São o testemunho de como a figura de Kim Jong-un (ou Kim Jung-eun, como às vezes é transliterado) está permeando o imaginário coletivo global, indo além da crônica e se tornando um fenômeno cultural e, consequentemente, comercial. A nova atenção sobre a filha não poderá deixar de multiplicar esse efeito.
O congresso da virada: entre nuclear e relações exteriores
Mas enquanto nós, ocidentais, nos concentramos nas dinâmicas familiares, no congresso jogou-se uma partida muito mais concreta. Kim Jong-un apresentou um novo plano quinquenal que coloca por escrito as ambições de Pyongyang. A mensagem é dupla: por um lado, a vontade de expandir "exponencialmente" o arsenal nuclear, com o desenvolvimento de mísseis balísticos intercontinentais (ICBMs) lançáveis de terra e de submarinos, drones com inteligência artificial e sistemas de guerra eletrônica. Por outro, uma definição clara e definitiva das relações com o Sul: "A Coreia do Sul é o nosso principal e irrevogável inimigo", bradou. Chega de reunificação, chega de diálogo. Apenas dois estados em perpétuo conflito.
Esta linha dupla - poder militar e fechamento total - cria uma tensão geopolítica que, para quem faz o meu trabalho, é comida na boca. Significa instabilidade, claro, mas também enormes fluxos de investimentos em defesa pelos países vizinhos, uma atenção renovada para rotas energéticas alternativas e um interesse intenso por cada mínimo sinal vindo daquele país. É aqui que a minha análise cruza os seus interesses como leitores e investidores.
O eixo familiar e o poder real
Não podemos também ignorar a outra figura-chave emergida do congresso: Kim Yo-jong, a poderosa irmã do líder. Sua promoção a diretora de assuntos gerais do comitê central não é uma formalidade. Após anos como porta-voz feroz contra Washington e Seul, agora ela gerirá toda a máquina operacional do partido. Esta reestruturação cria um núcleo de poder familiar sólido e coeso: o líder na direção, a irmã no controle do aparato, a filha projetada para o futuro.
Esta triangulação do poder é a verdadeira garantia de estabilidade (ou de instabilidade controlada) para os próximos anos. E num mundo que tenta desesperadamente entender como interagir com Pyongyang, compreender esses equilíbrios internos é a única maneira de acertar uma jogada diplomática ou comercial.
Em suma, enquanto o mundo olha para as ameaças nucleares, a Coreia do Norte está silenciosamente (e à sua maneira) renovando sua própria imagem e seu organograma. Da próxima vez que virem uma foto de Kim Jong-un com a filha, não se limitem a observar os detalhes. Perguntem-se: que mercado está se abrindo? Que mensagem está sendo passada? E, acima de tudo, qual será o próximo objeto de culto a acabar em nossas casas?