A polêmica de Andrew Tate ganha novo fôlego: Documentário de Louis Theroux expõe os bastidores da "mansfera" e como os pais podem proteger a próxima geração
Falar de Andrew Tate pode não te remeter de imediato a uma imagem, mas se você tem filhos adolescentes em casa, ou se costuma acompanhar polêmicas online, certamente já ouviu esse nome. Esse ex-campeão de kickboxing, com dupla cidadania britânica e americana, se tornou um influenciador digital nos últimos anos. Ele ganhou notoriedade rapidamente com seu discurso de masculinidade extrema e misoginia, ao mesmo tempo em que responde a processos na Romênia por tráfico de pessoas e estupro. Recentemente, o renomado documentarista britânico Louis Theroux lançou seu novo trabalho, "Inside the Manosphere", voltando suas lentes para esse controverso universo online e colocando Andrew Tate de volta no olho do furacão.
De uma família de enxadristas à rainha das polêmicas na internet
Muitos conhecem Andrew Tate apenas por suas declarações polêmicas, mas poucos sabem que ele vem de uma família talentosa. Seu pai, Emory Tate, era um Grande Mestre de xadrez afro-americano, conhecido por suas táticas agressivas no tabuleiro, e seu avô, Emory Andrew Tate I, também era militar e apaixonado pelo esporte. Andrew aprendeu a jogar xadrez com o pai na infância e chegou a competir, mas acabou trilhando outro caminho: trocou as peças pelo ringue e conquistou diversos títulos mundiais de kickboxing.
Depois de se aposentar dos ringues, Andrew levou sua espírito de luta para o mundo virtual. Criou um canal no YouTube e o podcast Tate Speech by Andrew Tate, onde usa uma linguagem provocativa para disseminar sua "filosofia de sucesso" entre homens jovens: prega que sejam "alfa" (boss) e "não se submetam à sociedade" (don't be a slave to society), mas também faz inúmeras declarações depreciativas sobre mulheres e que glorificam a violência, como "as mulheres são parcialmente responsáveis por serem estupradas" ou "homens devem controlar suas mulheres". Apesar de ter sido banido das principais redes sociais por essas falas, seus seguidores (autodenominados "Tate Army") só aumentaram, editando e espalhando seus "mantras" em vídeos virais no TikTok e Instagram.
"Clown World" e os bastidores da mansfera
A influência de Andrew Tate é tamanha que virou objeto de estudo. O livro "Clown World: Four Years Inside Andrew Tate's Manosphere", escrito por um jornalista, detalha os quatro anos em que o autor esteve imerso nessa "mansfera", descrevendo um submundo online repleto de teorias da conspiração, ideologias de extrema-direita e misoginia. A obra mostra como Andrew Tate é hábil em explorar as frustrações dos jovens com o mundo real, se apresentando como um "mentor de vida" para, em seguida, atraí-los para seus cursos pagos, como a "Hustler's University" (agora rebatizada), lucrando com a vulnerabilidade alheia.
O documentário de Louis Theroux: quatro anos de investigação
Louis Theroux é conhecido por sua abordagem ao se aproximar de grupos controversos, dos neonazistas à indústria pornográfica, sempre com um olhar curioso e imparcial. Desta vez, ele passou quatro anos produzindo "Inside the Manosphere", onde não só entrevistou seguidores de Andrew Tate, mas também travou longas conversas com o próprio influenciador. Segundo Louis, Andrew segue sendo um "performer" diante das câmeras, um mestre em manipular o diálogo e enquadrar as acusações contra si como perseguição do "sistema". Em entrevistas, Louis admite que o mais assustador ao lidar com essas pessoas não é o extremismo em si, mas a "sinceridade" com que o pregam — eles realmente acreditam que estão "salvando" os homens.
Após a exibição do documentário, Louis fez questão de alertar os pais: "O conteúdo de Andrew Tate é predatório. Ele mira especificamente em garotos inseguros, que estão em busca de um propósito." Ele lembra que é essencial que os pais mantenham um diálogo aberto com os filhos, buscando entender o que eles consomem online, em vez de simplesmente proibir. A proibição, alerta, só torna esse conteúdo mais misterioso e atraente.
Processos na Romênia e liberdade vigiada
Por trás das câmeras, Andrew Tate e seu irmão Tristan Tate continuam enredados em batalhas legais. Presos na Romênia no final de 2022, eles respondem por tráfico de pessoas, formação de grupo criminoso e estupro. Após uma série de recursos, a dupla deixou a prisão e passou para prisão domiciliar, até que, mais recentemente, foi autorizada a circular livremente pelo território romeno, mas o julgamento ainda não foi concluído. As autoridades romenas seguem reunindo provas, e a situação está longe de um desfecho. Andrew Tate vive postando nas redes sociais que é vítima de perseguição política, mas para quem acompanha o caso, fica claro que, se as acusações se confirmarem, sua "liberdade" atual pode ser apenas temporária.
O que os pais podem fazer?
O fenômeno Andrew Tate vai além da ascensão e queda de um influenciador; ele escancara uma crise de identidade entre os homens jovens de hoje. Em um momento em que a masculinidade tradicional é questionada e o cenário econômico é desfavorável, filosofias de "sucesso" rasas e agressivas funcionam como uma droga, oferecendo uma sensação ilusória de poder. Para os pais brasileiros, esse caso serve de alerta:
- Não finja que é complicado demais para você: Não use a desculpa de que não entende de tecnologia para deixar seus filhos soltos na internet. Aprenda a usar o TikTok, o Instagram. Veja o que eles estão vendo.
- Diálogo, não repressão: Se você vir que seu filho consome esse tipo de conteúdo, não adianta confiscar o celular. Isso só vai deixá-lo mais resistente. Tente perguntar: "O que você acha que faz sentido no que ele diz? Com o que você concorda?" Tente entender a necessidade por trás da admiração.
- Apresente outros exemplos: Se seu filho admira a imagem de "sucesso" do Tate, apresente a ele outros modelos masculinos reais, que tenham conteúdo e respeito pelo próximo. Podem ser atletas, cientistas, empreendedores — para que ele entenda que ser homem tem muitas formas.
A história de Andrew Tate está longe do fim, e o documentário de Louis Theroux é apenas uma peça desse quebra-cabeça. Uma coisa é certa: enquanto houver jovens perdidos e em busca de respostas fáceis, "gurus tóxicos" como ele continuarão encontrando mercado. Nosso papel não é fingir que o problema não existe, mas sim encará-lo de frente e ajudar a próxima geração a desmontar, junto conosco, essas distorções.